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Sunday, November 16, 2008

"O mundo em que vivi" Ilse Losa


Resolvi escrever este post após ler o post que a Lyanni do blog http://lyani.wordpress.com/ postou no site dela.
O livro que mais marcou a minha infância foi "O mundo em que vivi" da escritora portuguesa com origem alemã Ilse Losa.
Recordo me do dia, em que vagueando pelas prateleiras da escassa bibilioteca do meu pai houve um que me mereceu especial atenção.
A encardenação era velha, capa vermelha se bem me recordo, daquelas bem duras. No interior era velhinho, conseguia-se imaginar perfeitamente por quantas mãos já teria passado. Nunca cheguei a entender como um livro daqueles estaria ali "perdido" no meio dos outros. Meu Pai não tinha por hábito ler, mas gostava de ter alguns exemplares de algumas obras mais ou menos conhecidos. Mas não era o caso daquele livro. Provalvelmente terá sido comprado em qualquer feira de velharias que o meu pai tanto adorava visitar. Ele costumava encontrar verdadeiras pechinchas. Certo dia comprou me 20 volumes de banda desenhada em alemão, como eu fiquei contente com aquela compra!
Voltando ao meu livro, ali estava ele, na estante a olhar para mim, implorando me para ser lido. Embora meia hesitante resolvi ceder á tentação. Escusado será dizer que mal li a primeira linha, fiquei como que seduzida. É um livro pequeno, lê-se rapidamente. É a história de uma adolescente judia criada pelos avós. As suas vivência, devaneios e preocupações são nos expostas pela autora de uma forma harmoniosa. Não sei explicar o que li naquelas palavras que me fizeram sentir algo de extremamente bom, algo que quando me recordo faz meu coração ficar mais quente. Foi nesse momento, após ler esse livro, que a minha obsessão por livros, citações e pensamentos tomou conta de mim. O meu gosto pela leitura nasceu nesse dia e tem me acompanhado até hoje.
Infelizmente não sei que sucedeu a esse livro. Como que por magia desapareceu da nossa biblioteca e até hoje nunca mais o reencontrei. Não tenho ideia se terá sido emprestado, perdido. Mas isso também não importa, pois as suas palavras continuam vem vivas dentro de mim. Mas hei-de procurar, a ver se o encontro, gostaria de relê-lo, ver se agora as palavras terão o mesmo efeito em mim....bela


Deixo-vos um pequeno extracto:

O primeiro dia da escola. A saca às costas, caminhei ao lado da minha mãe, cheia de curiosidade e de receios. O sr. Brand, o professor, distribuía sorrisos animadores aos meninos, que o fitavam com desconfiança. A barba grisalha e o colarinho engomado davam-lhe um ar de austeridade, mas os olhos alegres protestavam contra tal impressão. Começou por nos falar, e doseava serenidade com humor para afugentar os nossos medos. De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária. Quando o sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrizinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder «Israelita» à pergunta do sr. Brand à minha religião. Fora a mãe que me recomendara: «Quando o sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia». Eu não concordava, porque achava «israelita» uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. E quando o sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi «negociante de cavalos». Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de «sou israelita», que o meu pai era «comerciante».

O liceu ficava em L..., a cidade onde havia o teatro e a sinagoga. Tomávamos, manhã cedo, o comboio e, com gesto arrogante, estendíamos o passe anual ao revisor.



No primeiro dia de aulas tivemos de dizer o nosso nome e profissão do pai e a religião. Conforme recomendação da minha mãe eu disse:

- O meu pai é comerciante. Sou israelita.

Na escola primaria tudo fora natural. No liceu colegas viraram-se e olharam-me. Mais duas judias faziam parte da turma e uma delas, Hanna Berg, respondeu à pergunta com voz firme: «Sou judia». Os gestos de Hanna eram extraordinariamente vivos e comunicativos, enquanto nos seus olhos havia a expressão dessa melancolia penetrante das seculares lendas de sabedorias e flagelos.

Hanna propôs-me que a acompanhasse a uma reunião dos sionistas. E nessa tarde. em que conheci o grupo juvenil a que ela pertencia, compreendi por que razão dissera com tanta firmeza: «Sou judia».

Numa sala espaçosa vi rapazes e raparigas de blusa branca e gravata azul e, encostada a um canto, a bandeira azul e branca. Hanna saudou o grupo com «Shalom», «paz», e todos lhe responderam do mesmo modo.

Desprendeu-se do grupo um rapaz. Bateu palmas. Fez-se silêncio, e ele disse:

- Vamos começar.

Hanna indicou-me uma cadeira e segredou-me:

- É o Bertold. Repara bem nele.

Bertold: alto, de calções de camurça, expressão franca e decidida. Levantou a mão para dar sinal de começar e vi que era uma mão larga e forte. No momento em que Bertold dobrou os ombros para trás, endireitou o tronco e moveu a mão, os rapazes e as raparigas começaram a falar em coro: primeiro um murmúrio crescente, depois vozes altas, vigorosas, que pareciam vir duma grande massa de gente. Diziam de injustiças, de orgulho, de expectativa duma vida livre em Israel. Como um chefe de orquestra, Bertold regia-os. Juntava as mãos em concha para em seguida as erguer num movimento rápido: as vozes elevavam-se; abria os braços como quem pedia para recuarem: as vozes baixavam; rasgava o ar com as mãos: as vozes emudeciam. As frases esperançosas, a convicção com que eram ditas, isso impressionava-me fortemente. Concluí que aniquilaram todas as dúvidas e resignação dos velhos, que encontraram rumos novos. «Devemos ter orgulho por sermos judeus», diziam os velhos, mas na verdade procuravam apenas consolo. Esses jovens, porém, esses sim orgulhavam-se deveras.

Depois das declamações começaram a dançar a «horra». Deitando os braços pelos ombros uns dos outros formavam um círculo, rodavam para a esquerda sempre para a esquerda, alegres e entusiásticos. Cantaram a comunicativa melodia da «hatikwah», a canção da «esperança».

Excitada, falei em casa da reunião. Tencionava voltar lá para aprender a falar em coro, dançar a «horra» e cantar a «hatikwah». Mas tanto o meu pai como a minha mãe acharam que não, que isso não me servia. Só me meteria na cabeça a emigração para a Palestina e eu, como boa alemã, não devia abandonar a pátria a que pertencia.

Quando falei ao sr. Heim, sorriu um tanto triste:

- Repara, Rose, o meu rapaz também anda com os sionistas e por isso há discórdia em casa. Ele e a mãe quase que não se falam

2 comments:

acqua said...

Livros, embora nos contem histórias, eles também guardam um pouco da nossa história, afinal, sou sincera em dizer que as vezes conto a história da minha vida pelos livros que eu li...
Abraços meus e boa semana

lyani said...

Nossa que post lindo que nasceu da minha idéia roubada!
Que bom, fiquei muito feliz!
Adoro esse tipo de história, mas é pq eu adoro livros, bibliotecas, estantes!
Que bom que este post nasceu ^^
Bjos,
Ly