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Tuesday, June 16, 2009

Sou uma Menina do Mar


Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita. O polvo arruma a casa, alisa a areia, vai buscar a comida. É de nós todos o que trabalha mais, porque tem muitos braços. O caranguejo é o cozinheiro. Faz caldo verde com limos, sorvetes de espuma, e salada de algas, sopa de tartaruga, caviar e muitas outras receitas. É um grande cozinheiro. Quando a comida está pronta o polvo põe a mesa. A toalha é uma alga branca e os pratos são conchas. Depois, à noite, o polvo faz a minha cama com algas muito verdes e muito macias. Mas o costureiro dos meus vestidos é o caranguejo. E é também o meu ourives: ele é que faz os meus colares de búzios, de corais e de pérolas. O peixe não faz nada porque não tem mãos, nem braços com ventosas como o polvo, nem braços com tenazes como o caranguejo. Só tem barbatanas e as barbatanas servem só para nadar. Mas é o meu melhor amigo. Como não tem braços nunca me põe de castigo. É com ele que eu brinco. Quando a maré está vazia brincamos nas rochas, quando está maré alta damos passeios no fundo do mar. Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anêmonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia branca, lisa. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar. Posso respirar dentro da água como os peixes e posso respirar fora da água como os homens. E posso passear pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da Grande Raia. E a Grande Raia é a dona destes mares...


A menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andersen



"Gostava de ser uma menina do mar. Viver por entre paisagens magnificas rodeada de seres igualmente magníficos. Gostaria de poder sentir a água me envolver, em caricias eternas fazendo-me sentir leve. Gostaria de poder sentir a calma que apenas o mar nos proporciona, a emoção da imagem daquela imensidão de água azul ... Gostaria tanto de ser uma menina do mar... mas não sou. Terei que me contentar em viver em terra, e contemplar o mar imenso apenas de longe. Posso tocá-lo, mas não posso viver nele, estamos irremediavelmente separados. Gostaria de entrar nas suas águas profundas e partir, partir para onde quer que ele me levasse... não me importo para onde, desde que fosse para bem longe daqui... Bela"



10 comments:

lume lento said...

Já vivemos entre seres magníficos e rodeados de paisagens maravilhosas... nem sempre olhamos é para lá...

Brown Eyes said...

Sophia de Mello Breyner Andresen, que saudades. Saudades daqueles contos qe me traziam num mundo de fantasia. Valeu a pena passar por aqui para recordar aqueles sonhos que ela fazia nascer dentro de mim. Um beijo

Moni said...

que texto mais lindo!!! me fez lembrar de qnd eu era criança e amava o mar! era quase uma menina do mar!!! bjksss

Monique Frebell said...

Saudades Bela!

Besos*

Femme Fatale said...

Muito marca a minha infância esse livro (e o da fada oriana) =)

Obg por fazeres recorda-lo!

S* said...

Oh esse livro é tão bonito... Tão inocente e puro.

Depois de ter feito mergulho, admito que o mar me encanta ainda mais. :)

Flutua Comigo said...

Queres fugir, não fujas, mergulha nos teus sentimentos e irás refrescar-te seguramente.


Beijo



Flutuas Comigo?

Carlinha said...

E parece q há alguém q adora o teu blog!

Vai lá ver a prova no meu!

;)

saia justa said...

Podes ser sempre sonhar ...... imaginar-te onde querias estar e vais ver que a menina que tens ai dentro consegue sair e ser "a menina do mar"

Patricia said...

A Fada Oriana foi talvez dos livros que mais marcou o início da minha adolescêsncia. Adorei ler-te.