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Thursday, September 23, 2010

O velho e o muro

"Um jovem escritor desanimado com a sua arte decide partir em busca de um lugar onde encontrasse a sua inspiração. Durante dias, semanas viajou de cidade em cidade à procura de um lugar onde se encontrasse a si mesmo. Deambulou sem destino certo. Sentindo-se ainda mais angustiado. As cidades assustavam-no, o frenesim, o barulho, o corre corre das gentes obrigavam-no a encolher-se ainda mais dentro de si mesmo.
Um belo dia acordou compreendendo que o que procurava nunca encontraria num lugar atafulhado de gente. Arrumou todos os seus pertences: uma muda de roupa e calçado, muito papel e canetas. E partiu novamente em busca do lugar onde iria reencontrar a sua inspiração.
Durante semanas percorreu o país, as aldeias mais recônditas. Nada. No auge do desespero sentou-se na beira da estrada, solicitou ajuda divina. Seu olhar pousou numa placa semi escondida na vegetação. Aldeia dos sonhos, dizia a placa. Automaticamente seu coração bateu mais forte, sim, era um sinal do destino.
A aldeia ficava escondida entre dois vales, pequena, com meia dúzia de habitações pareceu-lhe ser o lugar ideal para se encontrar consigo mesmo. Chegando lá, ao seu destino, encontrar um lugar onde ficar tornou-se tarefa árdua. Não havia hóteis, não havia estalagens. Viu-se obrigado a bater de porta em porta para encontrar um lugar para ficar.
Uma senhora idosa recebeu-o de braços abertos a troco de meia dúzia de tostões. Finalmente iria descansar o corpo do esforço a que o sujeitara. Dormiu praticamente dois dias seguidos, apenas se levantando para fazer as refeições.
Ao terceiro dia sentou-se à secretária. Esta estava estrategicamente colocada em frente à janela. Enquanto escrevesse poderia observar a agitação da aldeia. À sua frente localizava-se uma habitação velha, mal tratada pelo tempo. Achou caricato o aspecto da janela versus o muro que rodeava a propriedade. O muro encontrava-se impecavelmente tratado. Estranhou tal façanha, quem cuida melhor de um muro do que da própria casa? Decidiu começar a escrever mas não saía nada. Voltou a olhar pela janela. Vislumbrou o vulto de um idoso que se encontrava junto ao muro, espantem-se a repará-lo. Com extremo cuidado manuseava as ferramentas, colocava cimento onde as fissuras se começavam a notar. Sentiu-se intrigado.
O cenário da sua janela, repetia-se dia após dia. Quer fizesse chuva, quer fizesse sol, lá estava o idoso a reparar o muro. Durante dias a fio o observou da sua janela. Escusado será dizer que não conseguiu escrever uma frase, uma ideia que lhe fizesse algum sentido. Sentia-se desesperar, o chão do quarto repleto de papéis amarrotados.
Decidiu sair pela primeira vez naqueles dias. Seus olhos demoraram a acostumar-se aos raios de sol que naquela manhã iluminavam a aldeia. Seu corpo inclinou-se em direcção ao velho e ao muro. O velho lá estava novamente concentrado na sua tarefa. Ponderou qual seria a melhor forma de o abordar e se seria de bom tom fazê-lo. Afinal o homem parecia concentradíssimo na sua tarefa.
- Bom dia turista - cumprimentou o velho senhor, sem parar de fazer o que estava a fazer.
- Bom dia senhor.
- Um jovem da sua idade não lhe faz bem estar tanto tempo fechado num quarto.
Sentiu-se invadido por uma sensação estranha. Como ele sabia que ele o observava da janela?
- Mas como... - balbuciou
- Não se esqueça que isto é uma aldeia pequena, tudo se sabe! - riu-se o velhote.
Respirou de alívio quando percebeu que o velhote não mencionara que ele o observava diariamente.
- Posso-lhe perguntar algo? - perguntou o jovem
- Eu já sei o que vai perguntar, mas pode sim.
- Porque todos os dias repara este muro? Porque cuida mais do muro do que a sua própria casa?
- Sabes meu jovem, há quem venha ao mundo com uma tarefa, a minha é a de cuidar deste muro. Todos os dias aqui venho reparar as frinchas que surgem, retocar a pintura, cuidar dele, como se de um ente querido se tratasse.
- Mas isso não faz sentido nenhum. Um muro não fica com frinchas de um dia para o outro.
- Achas que não meu jovem? Então imagina que este muro simboliza as relações humanas. Tu tal como eu sabes muito bem que o ser humano é caracterizado por rupturas, por frinchas que se instalam nas suas relações. Por cada desavença nas relações surge uma frincha no meu muro. Algumas são leves e eu consigo reparar rapidamente. Outras como aquelas ali, estás a ver? - apontou em direcção a umas fendas bem feias que ameaçavam a estrutura do muro - são impossíveis de reparar. Isso acontece quando as relações humanas se rompem, não as consigo reparar. Por isso todos os dias tenho que fazer neste muro, todos os dias em qualquer parte do mundo existem relações que se rompem, existem danos irreparáveis, mas também existem aqueles que eu consigo voltar a reparar.
O jovem olhou para o velho com ar incrédulo, só podia estar doido não?
- Pensas que estou louco? Que sou um velho senil? Então amanhã de manhã ao romper da aurora vem ter aqui comigo. Vais ver quantas frinchas aparecem da noite para o dia, é que a noite é propícia para o surgimento de argumentos que provocam danos irreparáveis nas vidas das pessoas. Agora vai meu jovem, amanhã encontramos-nos.
E o jovem foi. Não pregou olho durante a noite. Sua mente num turbilhão.
No dia seguinte à hora combinada encontrou-se com o velhote. Constando com os seus próprios olhos viu as fendas que se haviam formado no intervalo de meia dúzia de horas. Algumas ligeiras, outras fundas e feias. Não sabia que dizer. Não disse nada. Agarrando ele mesmo nas ferramentas ajudou o velhote a cumprir a tarefa que lhe estava destinada.
Nessa noite quando chegou ao se quarto, sentou-se na secretária, e escreveu. Escreveu sem parar durante horas, escreveu num frenesim tal que o seu pulso lhe doía mas não conseguia parar. Escreveu sobre as fendas, escreveu sobre as relações, escreveu sobre a fragilidade das relações e dos papeís desempenhados pelos intervenientes. Encontrara novamente a sua veia, tudo porque um dia, encontrara um velho e um muro que lhe haviam dado uma lição de vida. "



22 comments:

Maria said...

És uma contadora de histórias...mesmo que estas sejam da tua autoria ou não.

Beijinho

Poetic GIRL said...

Maria: Este conto é da minha autoria, acabou de sair de dentro de mim. Quando não é eu menciono sempre! bjs

Paula said...

Em tudo na vida existe uma lição. Agora há os que a vêm e aprendem e os que não querem ver e não crescem enquanto seres humanos... é como tudo na vida!

Beijocas doces***

MARIA MARIQUITAS said...

Tu és brilhante!

Sem palavras, só me ocorre dizer... brilhante, Bela!

Obrigada...

Beijinhos

Joana

anf said...

Falta o livro, o que é preciso fazer para isso acontecer,

bjo

Maria said...

Olá. Por isso mesmo escrevi de tua autoria ou não.
Esqueci-me do pormenor.
Desculpa.
Vai para a frente com a tua escrita.
Tens sensibilidade.

Beijinho

Manuela said...

Poetic Girl, escreves deliciosamente bem :)

Lindo :)

Beijinhos

Eduardina said...

A mensagem deste texto é muito significativa, e inspiradora!Além disso, leva-nos a reflectir. Lindo!

Poetic GIRL said...

Paula: Temos que ter sempre espírito aberto, para aprendermos também nós a nossa lição! bjs

Poetic GIRL said...

Mariquitas: Obrigada! Fico contente que tenhas gostado. Tinha este conto na minha cabeça já há dias, hoje finalmente consegui colocar em papel! beijoca

Poetic GIRL said...

ANF: Ah quem me dera, quem sabe agora com a licenciatura ele não sai mesmo? Já te contei que é em linguas e literaturas europeias? Vou poder melhorar o meu português! bjs

Poetic GIRL said...

Maria: Mais uma vez, obrigada por me encorajares. Se um dia chegar lá, quero-te na primeira fila! bjs

Poetic GIRL said...

Manuela: Obrigada! Vou escrevendo estas histórias que se formam na minha cabeça... beijinhos

Poetic GIRL said...

Eduardinha: Acho que a intenção é mesma essa, todos reflectirmos! Bem- vinda! bjs

Ricardo Fabião said...

Uma grande metáfora para os nossos dias.
Nada como um bom muro, para nos dizer os limites, nos fazer entender o caminho e a parada.

A forma aqui como contas a vida, a a precisão com que recortas o instante é um deleite à parte; possivelmente, o grande tesouro desta página.

És uma grande contadora de história; conta outra!

Bjos.
Ricardo

Fatinha said...

Bela, sabes que conheço o teu blog há pouco tempo, e daí a minha surpresa por ver que este texto é da tua autoria. Muito bom, li-o e achei-o não só bonito, mas muito sábio.
Parabéns pela escrita e obrigada pela partilha.
beijinho

Pérola Negra said...

Parabéns querida, belo conto! Bela lição de vida! Olhemos mais para as fendas que abrimos todos os dias e tentemos repará-las dia a dia, para que não se tornem fendas demasiado fundas, irreparáveis mesmo...
Beijinhos

Poetic GIRL said...

Ricardo: Obrigada pela tua opinião... e como eu adoro contar uma história. Irei contar mais prometo! bjs

Poetic GIRL said...

Fatinha: Obrigada querida, gosto de usar estas metáforas... bjs

Poetic GIRL said...

Pérola: Quantas feridas a gente não se cansa de tapar não é? bjs

pinguim said...

Belíssimo e para reflectir, devidamente.

Poetic GIRL said...

Pinguim: A ideia é mesmo reflectir-se! bjs