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Friday, December 24, 2010

Conto de Natal

"Este conto foi inicialmente escrito em Dezembro de 2009, achei pertinente a sua reedição este ano, porque há sempre alguma lição que retiramos das leituras mais antigas, eu tirei a minha. Bela"



"Maria observava sua mãe que ultimava a decoração da árvore de Natal. Do seu lugar no sofá, livro no colo, fingia uma indiferença que talvez não sentisse. Estava zangada com o Natal. Sentia uma revolta interior desde que o seu Pai pela época Natalicia as havia abandonado há um bom par de anos. Tentava a todo custo entender a motivação que sua mãe encontrava de comemorar ainda esta data. Data esta que para ela era significado de tristeza e revolta. Sabia a dor que sua mãe sentia. Uma dor interna, que escondia a todo o custo da sua filha. Mas Maria via o seus olhos desprovidos de brilho, via as suas lágrimas silenciosas, via o seu caminhar pela casa nas noites em que não conseguia dormir. Maria queria ver sua mãe feliz. Levantou-se do sofá, caminhou até á janela. Só uma coisa a voltaria a fazer acreditar na magia do Natal. Seria ver o seu desejo de encontrar uma companhia para a sua mãe realizado.
No prédio em frente vivia um senhor. Todos os dias á mesma hora ele se sentava perto da janela com um livro na mão. Da sua janela Maria não sabia que livro seria, mas sentia-se intrigada. Era um livro grande de capa dura, quase que poderia afirmar com convicção que seria um album de retratos. Sabia que este senhor vivia sózinho. Ninguém nunca lhe tinha conhecido familiares, amigos ou meros conhecidos. Parecia viver em reclusão. Maria sentia-se intrigada por ele. Não seria ele uma boa companhia para sua mãe? Duas almas em sofrimento teriam mais possibilidades de encontrar a felicidade. Olhou para sua mãe, ainda jovem e bonita. Dona de um sorriso encantador. Maria decidiu então naquele momento dar um pequeno toque seu no "destino". Decidiu escrever um bilhete ao vizinho:
"Querido vizinho, ao longo destes ultimos meses tenho reparado no quanto vive isolado na sua solidão. Eu mesma por vezes me sinto assim. Acredito que o sofrimento tem a capacidade de aproximar as pessoas. Vivemos a um passo um do outro, nunca trocamos uma palavra, nunca nos cruzamos no elevador. Não consigo deixar de reparar no seu olhar triste, nas suas mãos que seguram esse livro com tanto carinho. Aceitaria nesta época natalicia, onde devia transbordar o amor e a união entre as pessoas, o convite para um chá na minha humilde casa? sua vizinha do prédio em frente, apartamento 23, simplesmente Maria"
Dobrou cuidadosamente o papel e saiu sorrateira sem a mãe dar por ela. Colocou o bilhete na caixa do correio do vizinho, saindo logo a correr dali não fosse ser apanhada em flagrante.
Esperou, esperou paciente para ver o resultado da sua acção. O vizinho não veio. Sentiu-se intrigada. Como ele recusaria um convite assim? Impaciente vigiava a janela do vizinho. Não demoraria muito que sua mãe começasse a estranhar tal comportamento. Estranhava a sua ausência. Teria se sentido ofendido por se saber observado?
No dia de Natal Maria e a mãe estavam á janela. Esperavam que os poucos doces que ainda se davam o prazer de cozinhar ficassem prontos. De repente apareceu o vizinho na janela, devolvendo o seu olhar. Na mão tinha o seu bilhete. Maria sentiu o seu olhar de curiosidade. Acenou-lhe. Ele acenou de volta. Maria sorriu feliz. Sua mãe ignorava o que se passava á sua volta, nem tão pouco de apercebeu do vizinho que da janela em frente a observava. De repente ele desapareceu da vista.
Minutos depois a campaínha tocou. "Quem será, logo neste dia?" perguntou sua mãe enquanto se dirigia para a porta. Do outro lado da porta encontrava-se o vizinho. Maria sorriu. Era muito mais bem apresentado do que ela via da sua janela. Sorriso franco, ligeiramente timido até.
"Vim aceitar o convite"
- "Convite? Mas que convite?" perguntou a sua mãe
Ele estendeu lhe o bilhete. Minha mãe leu-o. Calmamente, depois suas mãos começaram a tremer.
"- Não é possível," - balcuciou
- "Não é seu o bilhete?" perguntou ele, sua voz já denotando uma grande desilusão
- "Não, não é meu. Mas eu reconheço a letra. É da minha filha.
"Ah assim já estou mais descansado" disse ele "Mas estaria sua filha a brincar comigo?"
- "Isso é impossível, pois minha filha faleceu no inicio deste ano"
Olharam-se ambos prolongadamente. Maria assistia do lado, impaciente pelo desenrolar dos acontecimentos. Iria sua mãe fechar-lhe a porta? Tentou enviar lhe pensamentos positivos, dar lhe confiança para abrir seu coração.
Sua mãe sorriu. "Bem se a minha filha lhe fez um convite seria muito má educação da minha parte não cumprir a sua vontade." - dizendo isto abriu a porta deixando o vizinho entrar.
Sentaram-se ambos a conversar por horas a fio. Maria sentia-se feliz. Seu desejo de Natal tinha-se realizado. "

Autoria: Lcarmo (Poetic Girl)
Dezembro, 2009

7 comments:

Libelinha☆ said...

Feliz Natal =)

Beijinhos ;P

Petra Pink said...

Tão lindo querida! beijo enorme..... Feliz Natal!

pinguim said...

Que ternura de história de Natal.
Obrigado pela partilha.

Fragmentos Culturais said...

Feliz Natal!
Beijinho*

(voltarei para ler o teu conto de natal)

Vera, a Fera said...

Isto sim, é o espírito de Natal.

caminhante said...

lindo... o certo para uma noite de natal...

Maria said...

Lembro-me de ler este conto. Belo, como Bela é quem o escreveu.~
Beijinho