Pages

Friday, March 18, 2011

Peso da vida


"A menina caminhava pela calçada, de estatura singela e frágil. Aos ombros carregava uma mochila volumosa, mais do que os seus frágeis ombros pareciam suportar. Sua mãe caminhava ao seu lado, as mãos de ambas entrelaçadas num ameno abraço de dedos. Apesar do aparente peso nos seus ombros, a menina caminhava feliz, como se o peso da mochila fosse o seu meio de equílibrio perante a vida. Os amigos esses caminhavam livres de pesos, as progenitoras carregando por eles os seus pesados fardos. Corriam livrementes, sendo repreendidos por gritos de desespero das mães que corriam atrás deles. A menina olhou a mãe de soslaio. Parou na entrada da escola, os seus olhos resplandecendo de dúvidas.
- Mãe, porque não carregas a minha mochila? Porque dia após dia tenho que ser eu a carregar a minha mochila?
- Os teus ombros são capazes de suportar o peso da tua mochila. Nem todos os dias carregas o mesmo peso, uma dia está mais leve outro dia está mais pesada. Mas cabe-te a ti carregares esse peso, se eu o fizer por ti, os teus ombros jamais suportarão o peso da vida. Porque o segredo não está em que alguém nos alivie o peso, mas sim sermos nós capazes de carregar o peso. Ao longo da vida irás ter alturas que terás alguém ao teu lado com quem dividir o peso, mas haverá outras tantas em que olharás à volta e não verás ninguém. Nessa altura o peso da tua mochila terá que ser carregado apenas por ti e para essa eventualidade que te preparo. Para o dia em que, enquanto os outros arrastarão os seus fardos, os teus ombros serão capazes de carregar o peso da tua vida.
A menina sorriu confiante. E de ombros erguidos carregou a sua mochila, sentindo-se mais confiante do que nunca. Do portão da escola sorriu à mãe, essa menina podia ser eu. "

hoje de manhã passei por um grupo de miúdos em que as mamãs carregavam as suas mochilas. Imediatamente remeti-me a um passado já distante no qual recordo que nunca a minha mãe carregou a mochila por mim.
Sempre foi da minha inteira responsabilidade o preparar a mochila no dia anterior, e o carregar. 
Agradeço-lhe, esse facto tornou-me mais responsável, e foi algo que me marcou até hoje.

10 comments:

anf said...

Gostei,
é uma boa verdade,
bjo

pinguim said...

Educar é isto...

Gabriela... said...

Por acaso também já foi algo que notei quando passo por mães a levar/ou trazer os filhos da escola... carregam as mochilas deles.
Eu também sempre tive a obrigação de preparar a minha e carregar e ainda mais! Eu tinha a obrigação de um irmão mais novo que todos os dias tinha que levar à escola antes de eu ir para a minha... temos 7 anos de diferença e todos os dias enquanto estudamos perto um do outro o levei sempre de manhã à escola.
Acabei mais tarde por ser eu a encarregada de educação dele! hehehe
Jinho

Inês said...

Tens o dom de por em palavras o que nos persegue todos os dias e que, tantas vezes, escapa ao nosso racional!
Bom fim de semana menina poeta!

palavrasasolta said...

Já tinha pensado nesse assunto e reparei agora, que li as tuas palavras, que faço o mesmo à minha cria: sou eu quem lhe leva a mochila. Mas o facto de conseguires pôr em palavras o que o meu coração já deveria ter percebido, fez com que me percebesse que isso não pode continuar.
Por isso, segunda-feira, meu filho, prepara-te para um nova etapa.
A ti, Poetic, um obrigada por me recordares da razão porque o vou fazer.

Maria said...

Simplesmente belo.

Beijinho

Lala said...

cada uma com os seus pesos... e as suas responsabilidades. a minha Carolina também carrega a mochila dela. sempre carregou. mesmo quando ia para o infantário. não me lembro nunca de me ter pedido para lhe levar a mochila. aliás, eu perguntei-lhe uma vez... respondeu-me com um simples: "deixa estar mãe, a mochila é minha, não é?" :o)!
Beijinho

Gi said...

Eu desde muito pequena, ia à escola sozinha. Minha casa era perto e tinha um guarda para nos ajudar a atravessar a rua. Na esquina ficava o correio. Eu tinha fixação por cartas e perguntava todos os dias: "tem carta para minha mãe?" Já aos 4 nos de idade este era meu caminho. Eu era baixinha com cabelos bem loiros e enrrolados. Conversava com todo mundo e adorava ir à escola sozinha. Era outro tempo, em uma cidade que ainda mantém a calmaria daqueles dias.

Petra Pink said...

E quem diz as mochilas, diz tudo.
O problema dos papás hoje em dia é quererem fazer da vida dos filhos uma bolinha de vidro onde nada os atinge.
Não os preparam para nada, carregam com as suas mochilas, as suas más educações, carregam com os pedidos diários de roupas de marca, carregam com o facto de eles quererem portáteis e consolas aos 4 anos...
Jogar a bola já não é normal....
E um dia mais tarde carregarão com monstros mal agradecidos, mal preparados para a vida, dependentes, chorosos, pouco habituados a trabalhar.
Pouco calejados para uma sociedade que nem sempre lhes sorri.
Não... não me refiro a todos os pais.
Felizmente ainda ha quem saiba educar.

Brown Eyes said...

Bela isso significa o quanto tentamos preservar os pais. Sempre tratei de tudo o que me dizia respeito, desde muito pequena, até do tratamento da minha roupa. Hoje os pais pensam que estão a proteger os filhos e estão a estragar-lhes o futuro. Beijinhos